O Portal Populari traz a primeira reportagem da série “Curitiba pelos números: economia, renda e desafios da capital”. A partir de dados oficiais, a série vai mostrar como Curitiba produz riqueza, como essa riqueza se distribui entre a população e quais são os desafios para a cidade continuar crescendo. Nesta primeira reportagem, o foco está na economia da capital, na renda dos moradores e na relação de Curitiba com os municípios da Região Metropolitana. Para entender o que os números mostram, o Populari ouviu o economista Julio Grudzien, professor universitário e doutor em políticas públicas.
Segundo os dados definitivos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Curitiba movimentou R$ 120,065 bilhões em 2023. O valor coloca a capital como a 7ª maior economia entre todos os municípios brasileiros e a maior da Região Sul.
Entre 2021 e 2023, a economia de Curitiba cresceu 22,5%, enquanto o crescimento do Brasil no mesmo período foi de 21,1%. As estimativas do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) apontam que o Produto Interno Bruto (PIB) da capital pode chegar a R$ 140,389 bilhões.
Outro número ajuda a comparar Curitiba com outras cidades. O PIB per capita, que é o valor da riqueza produzida dividido pelo número de habitantes, chega a US$ 13.550 por ano. O valor é maior que o registrado em Bogotá, na Colômbia, de US$ 11.280, e em Quito, no Equador, de US$ 10.220. Na comparação com outras capitais da América Latina, Curitiba fica atrás de Montevidéu, no Uruguai, e de Santiago, no Chile.
Para o economista Julio Grudzien, uma das explicações para esse resultado está na produtividade. Na prática, o conceito está relacionado à capacidade de gerar mais valor a partir do trabalho e da produção. “A produtividade está totalmente ligada ao valor agregado do produto, que é quando você transforma uma matéria-prima simples em algo muito mais valioso e tecnológico”, explica Grudzien. “Curitiba é o grande centro econômico do Estado. Nós temos a Cidade Industrial (CIC), que é um polo industrial fortíssimo, combinada com uma população de renda média e alta. Isso permite que a cidade agregue valor ao setor de serviços, como a tecnologia, por meio de iniciativas como o Vale do Pinhão. A indústria tradicional, a renda mais alta e a tecnologia trabalham juntas para fazer a economia rodar melhor.”

Uma economia que reúne diferentes setores
Curitiba não depende de apenas um setor da economia. A cidade reúne indústria, comércio, serviços e tecnologia, com destaque para atividades que exigem mão de obra qualificada. Um dos números que ajudam a explicar esse perfil é o nível de escolaridade. Entre os moradores com 25 anos ou mais, 38,7% têm diploma de ensino superior.
Essa mão de obra está distribuída de diferentes formas no mercado de trabalho. Quase metade dos trabalhadores, 44,22%, está no setor privado com carteira assinada. O trabalho por conta própria e o empreendedorismo representam 32,86%. O funcionalismo público responde por 13,46%, enquanto os empregadores, que são os donos de negócios, representam 5,79%.
Além da atividade econômica dentro do próprio município, Curitiba também concentra parte da riqueza produzida em outras regiões do Paraná. A capital reúne atividades administrativas, financeiras, industriais, de serviços e de tecnologia, fazendo com que recursos gerados em outras partes do Estado também circulem pela cidade.
O economista Julio Grudzien explica que esse papel também está relacionado à força de outras áreas da economia paranaense, principalmente o agronegócio. “A indústria local ajuda muito, mas precisamos olhar para o cenário maior. O Paraná está com as finanças públicas organizadas, o que ajuda todos os setores a crescerem. O próprio agronegócio do interior acaba impactando a capital. Como Curitiba é o coração administrativo e financeiro, o dinheiro e as riquezas geradas no campo acabam vindo, em grande parte, para cá. A cidade funciona como um hub, um ponto central que conecta e concentra todos esses setores. Além disso, a forte presença de grandes universidades qualifica a mão de obra, o que deixa o trabalho de todo mundo mais valioso.”
A diferença de renda entre Curitiba e as cidades vizinhas
Os números da economia também mostram uma diferença importante entre Curitiba e os municípios do entorno. Segundo o Ipardes, a renda média de quem trabalha em Curitiba é de R$ 4.757,63 por mês. Na região imediata de Curitiba, que reúne os municípios do entorno da capital, a média é de R$ 2.973,65.
A diferença chega a cerca de 60%. Ou seja, a renda média de quem trabalha na capital é bem maior do que a registrada nos municípios da região imediata. Curitiba também concentra uma estrutura de serviços que atende uma população de quase 1,8 milhão de habitantes. Entre os domicílios da cidade, 96,34% têm acesso à internet de alta velocidade, 96,19% estão ligados à rede de água e 94,40% contam com rede de esgoto.
Manter essa estrutura e acompanhar o crescimento da cidade exige investimentos contínuos em infraestrutura e serviços públicos.
O desafio para os próximos anos
Para Julio Grudzien, o desafio de Curitiba não está apenas em continuar produzindo riqueza. A cidade também precisa definir como pretende crescer nos próximos anos, mantendo as contas públicas organizadas e preparando a população para as mudanças no mercado de trabalho. “O grande desafio é continuar cuidando das contas públicas, pois o setor produtivo pede uma revisão desse modelo para continuar competitivo. Precisamos manter os investimentos em educação e capacitação técnica”, alerta o especialista. “Mas o ponto principal, que ainda nos falta tanto no Brasil quanto na nossa região, é um projeto claro. Falta uma direção para discutir esse crescimento de forma ordenada. Nos falta clareza de onde se quer chegar.”
A discussão também envolve a capacidade de manter esse crescimento no longo prazo. A economia de Curitiba tem forte participação do agronegócio, por meio da relação da capital com o restante do Estado, e do consumo das famílias. Esses fatores, porém, podem variar de acordo com as condições econômicas. “Se você olhar para os últimos motores da nossa economia, fomos muito puxados pelo agronegócio e pelo consumo das famílias. Mas o consumo muda muito rápido, é volátil. O caminho mais seguro e duradouro é investir de verdade na capacitação e formação técnica das pessoas. Isso daria um valor muito maior para a nossa produção interna. Mas, para esse investimento dar certo, precisamos primeiro responder à pergunta: para onde queremos ir e onde queremos chegar?”
Os números mostram uma Curitiba com uma economia diversificada, forte produção de riqueza e níveis de renda e escolaridade que se destacam na comparação com outras cidades. Ao mesmo tempo, a diferença de renda em relação aos municípios do entorno e a necessidade de manter investimentos em infraestrutura, educação e qualificação mostram os desafios que acompanham esse crescimento.
Uma capital qualificada
Na próxima reportagem da série Curitiba pelos números: economia, renda e desafios da capital, o Portal Populari traz uma leitura detalhada sobre o mercado de trabalho e o perfil dos moradores curitibanos. Uma análise que mostra como a capital paranaense alcançou o índice de quase 40% da população com ensino superior completo e de que forma essa explosão de escolaridade impactou o ecossistema local, transformando a cidade em um polo de serviços especializados e impulsionando uma forte onda de empreendedorismo.



