A derrubada da floresta na Amazônia está relacionada à redução das chuvas na Bacia do Rio Iguaçu, no Paraná. É o que aponta um estudo de pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR), publicado em julho deste ano. A pesquisa cruzou dados de desmatamento registrados entre 2011 e 2023 com informações de chuva de 64 estações meteorológicas e encontrou uma relação estatisticamente significativa: nos períodos de maior desmatamento na Amazônia, o volume de chuva na bacia paranaense tende a ser menor.
A ligação entre a Amazônia e o Paraná
A pesquisa foi feita por Ana Carolina da Silva, Franklin Galvão, Paulo Antônio Breves Fontão e Nelson Luiz Cosmo, da UFPR. O trabalho foi publicado no Brazilian Journal of Biology e analisou a Bacia Hidrográfica do Rio Iguaçu, uma das principais regiões produtoras e de geração de energia do Paraná.
Mas como uma floresta que fica a milhares de quilômetros pode interferir na chuva que cai no Paraná? A explicação está no caminho que a umidade percorre pela atmosfera. A Amazônia libera grande quantidade de água para o ar por meio da evapotranspiração. Essa umidade é transportada para outras regiões pelos chamados Jatos de Baixos Níveis, grandes corredores de vento que levam vapor d’água para o Sul do Brasil.
Quando a floresta perde cobertura, também diminui a quantidade de água devolvida para a atmosfera. Com menos umidade disponível, há menos vapor d’água sendo transportado para outras regiões.
O que o estudo encontrou
Os pesquisadores encontraram uma correlação de -0,285 entre o desmatamento na Amazônia e o volume de chuva na Bacia do Iguaçu. Em termos simples, os dados mostram que, nos períodos em que o desmatamento aumentou, a chuva na região estudada apresentou tendência de queda.
A relação é considerada fraca, mas foi estatisticamente significativa. Isso significa que o resultado encontrado na pesquisa não apareceu apenas por acaso nos dados analisados.
Isso também não significa que toda seca registrada no Paraná seja causada pelo desmatamento da Amazônia. Fenômenos como El Niño e La Niña também interferem na quantidade de chuva. O que o estudo mostra é que a perda da floresta aparece como mais um fator que pode alterar o regime de chuvas que chega ao Paraná.
O impacto na agricultura
E é aí que o problema chega diretamente ao campo. A área estudada pela UFPR reúne 35 municípios, responsáveis por cerca de 60% da produção de grãos e 23% da pecuária do Paraná. A produção depende da chuva para manter as lavouras, as pastagens e os reservatórios. Se períodos de chuva menor ou mais irregular ficarem mais frequentes, aumenta o risco para o agricultor, principalmente nas fases em que as plantas precisam de mais água para se desenvolver.
Na prática, menos chuva pode atrasar o plantio, aumentar a necessidade de irrigação, reduzir a produtividade e elevar o risco de quebra de safra. Se a produção cai, o efeito também pode aparecer no preço dos alimentos.

E quem mora na cidade?
O impacto não fica restrito ao campo. A mesma Bacia do Iguaçu concentra cinco grandes reservatórios que respondem por cerca de 41% da geração hidrelétrica do Paraná. Quando chove menos, entra menos água nos rios e nos reservatórios. Isso pode aumentar a pressão sobre a geração de energia e sobre a disponibilidade de água.
Para quem mora nas cidades, o efeito não aparece necessariamente de um dia para o outro. O alerta do estudo é para o futuro, caso o desmatamento continue e a redução das chuvas se intensifique. É uma cadeia que começa na floresta amazônica, passa pela atmosfera e chega ao Paraná. A água que deixa de chegar à lavoura também pode fazer falta nos rios e reservatórios. E, no fim dessa cadeia, o problema pode aparecer no campo, na produção de alimentos, na energia e no abastecimento das cidades.
A pesquisa da UFPR ajuda a mostrar essa conexão: o que acontece com a floresta na Amazônia pode interferir na quantidade de chuva que chega ao Paraná.



