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Segurança

Exclusivo: documentos revelam que homem que sequestrou crianças em Curitiba era “dominado por ideias espirituais delirantes”

Relatórios psiquiátricos e cadernos apreendidos pela polícia revelam delírios de perseguição e guerras espirituais.

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Cadernos de anotações repletos de desenhos e frases desconexas. Relatos de perseguição, inimigos inexistentes e riscos criados por uma mente doente. O Portal Populari teve acesso ao relatório completo da investigação do atentado ao Metrô de São Paulo cometido por J.T.E.S., de 39 anos, o homem que sequestrou 13 crianças e uma professora na última sexta-feira, dia 9 de outubro, no Centro Municipal de Educação Infantil São Braz, no bairro São Braz, em Curitiba.

Quatro anos antes, o homem foi preso pela polícia de São Paulo após tentar empurrar uma mulher nos trilhos do metrô no momento em que o trem se aproximava. Na casa do criminoso, cadernos foram apreendidos com centenas de anotações e desenhos. “Tendo na sua mente e coração dez por cento ou mais de orgulho, tristeza, revolta, ódio, rancor e raiva, um trato ou acordo será bom para todos e assim com certeza vai ser feito justiça de verdade nas minhas questões”, diz um trecho dos manuscritos apreendidos pela polícia de São Paulo e aos quais o Populari teve acesso.

J.T.E.S. não tinha família, esposa nem filhos. Era um homem solitário e portador de doenças psiquiátricas graves. No relatório final que investigou a tentativa de homicídio na estação da Praça da Sé, o delegado classificou o criminoso como uma pessoa doente e extremamente perigosa. “Dominado por ideias delirantes de cunho espiritual e por um forte sentimento de perseguição social, ele registrava em cadernos conspirações imaginárias e regras rígidas para combater supostos inimigos invisíveis”, informa o relatório da Polícia Civil de São Paulo. Nos cadernos apreendidos, foram encontrados desenhos que simbolizam os tormentos psicológicos do suspeito, que acreditava estar vivendo uma batalha espiritual em busca do que entendia ser sua libertação. “Eu me tornando um demônio com o nome de Frezza, irei corrigir as coisas erradas que ocorrem nesta Terra, com a minha alma podendo invadir e assumir o corpo de qualquer ser humano para controlar seu corpo e mente junto de suas memórias, sensações, gosto e desejos”, escreveu o suspeito em um dos textos sobre as “batalhas” que acreditava enfrentar.

Desenhos e manuscritos apreendidos na casa de J.T.E.S pela polícia de São Paulo, após o ataque no Metrô, em 2021

Doença psiquiátrica levava a quadros de extrema violência

O histórico clínico de J.T.E.S. e a apreensão dos cadernos em sua casa, aliados aos exames a que foi submetido durante o período de internação após a tentativa de atentado no metrô de São Paulo, serviram para que a Justiça entendesse que o homem não era um criminoso contumaz, com desejo de praticar o mal contra outras pessoas de forma voluntária. O que a Justiça tinha nas mãos era um homem com um quadro psicótico delirante e esquizofrênico muito grave, que era levado por seus delírios, todos decorrentes de sua doença mental, a praticar atos violentos. Isso o tornava ainda mais perigoso, se consideradas sua imprevisibilidade e sua instabilidade emocional e comportamental.

Em um dos laudos analisados pelo jornalismo do Portal Populari, o médico responsável pela avaliação psiquiátrica de J.T.E.S. no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico “Prof. André Teixeira Lima” de Franco da Rocha (HCTP I), para onde foi levado após o atentado ao metrô, relata: “O examinando é portador de transtorno psicótico crônico e grave (esquizofrenia), mantendo produção delirante e ausência de autocrítica em relação à gravidade de seus atos e à sua condição mental, apresentando elevado risco de reiteração de condutas impulsivas e violentas caso privado de ambiente contido e sob supervisão psiquiátrica rigorosa, razão pela qual contraindica-se a cessação da medida de segurança de internação.”

Um mês após ser posto em liberdade, homem planejou novo ataque

Após a avaliação psiquiátrica, J.T.E.S. ficou internado por quatro anos em São Paulo, até que a Justiça concedeu sua desinternação condicional. A liberdade foi decidida a partir de um novo laudo, elaborado por outra junta médica, que entendeu que o paciente poderia seguir com o tratamento em liberdade, sendo assistido pelo Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e fazendo uso contínuo de medicações.

J.T.E.S. se mudou para o Paraná assim que ganhou a liberdade, em agosto de 2025, e a execução da medida de segurança, ou seja, seu tratamento em liberdade, passou a ser responsabilidade da Vara de Execução Penal de Mallet. Em setembro de 2025, ele recebeu um novo parecer clínico do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), que atestava o cumprimento regular do tratamento ambulatorial.

Durante os surtos psicóticos, criminoso gravava seus delírios em gravadores digitais que guardava junto com os cadernos

No entanto, no mesmo mês, uma denúncia da Secretaria Municipal de Mallet alertava que o homem estaria planejando um novo atentado, desta vez contra crianças, em uma escola do município. A Polícia Militar foi acionada, e o homem foi alvo de um mandado de busca e apreensão em casa. No entanto, ao contrário do que aconteceu em São Paulo, quatro anos antes, a polícia não encontrou nada que revelasse qualquer planejamento criminoso.

Pedido de internação negado

Cientes da gravidade da situação e da periculosidade do paciente, o Ministério Público de Mallet pediu a reinternação do acusado. Com base no histórico psiquiátrico, criminal e de violência, a promotoria sustentou que J.T.E.S. era perigoso e deveria ser devolvido a uma instituição de custódia psiquiátrica, onde poderia receber o tratamento adequado. Mas a falta de provas sobre o plano de ataque à escola de Mallet foi determinante para que a Procuradoria do Ministério Público reformasse o entendimento e se manifestasse contra o pedido. J.T.E.S. ficou em liberdade e, antes mesmo de o recurso sobre sua liberdade ser julgado, mudou-se para Curitiba.

Ataque ao CMEI São Braz

O parecer da Procuradoria do Ministério Público contrário à reinternação de J.T.E.S. foi publicado em agosto de 2026. O homem já estava em Curitiba e, dois meses após a decisão que manteve sua liberdade, planejou um novo atentado. Dessa vez, contra o CMEI São Braz. A carta que ele teria deixado após invadir a escola apresenta características de texto, linguagem e discurso muito similares às dos manuscritos apreendidos pela Polícia Civil de São Paulo quatro anos antes, durante o atentado ao metrô.

O episódio do CMEI não foi o primeiro de J.T.E.S. em Curitiba. Em 2020, durante um surto psicótico, o homem destruiu o quarto da pensão onde vivia. Após o surto, a polícia descobriu que ele enviava cartas ameaçando e aterrorizando funcionários de um condomínio onde trabalhava como porteiro na época. Após ser detido e passar a ser investigado pelos episódios, ele fugiu para São Paulo, onde planejou o ataque ao metrô, em 2021.