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Segurança

Exclusivo: laudos apontavam risco, mas homem que invadiu CMEI em Curitiba seguia em liberdade

Documentos obtidos pelo Portal Populari revelam internações, ameaças e episódios de violência recorrentes.

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Um homem perigoso, violento, com um perfil esquizofrênico e delirante que estava solto pelas ruas, mesmo com o conhecimento da justiça sobre sua periculosidade. Esse e o perfil do homem que invadiu um CMEI no bairro São Braz, em Curitiba, na última sexta-feira (9), e fez 13 crianças e uma professora reféns. A descrição clínica consta em documentos reunidos ao histórico criminal do agressor pela Justiça de São Paulo e do Paraná, obtidos com exclusividade pelo Portal Populari. O dossiê, com mais de duas mil páginas, detalha o históico criminoso e de internações do sequestrador ao longo de mais de uma década.

Laudos periciais, decisões sobre internações e pareceres médicos produzidos nos últimos cinco anos pelas Justiças de São Paulo e do Paraná detalham o histórico de violência do homem, as avaliações sobre sua periculosidade e registros de pensamentos delirantes relacionados à possibilidade de cometer atos graves contra outras pessoas.

Segundo os prontuários médicos anexados ao histórico do homem na Justiça paulista, ele foi diagnosticado com esquizofrenia paranoide (CID-10 F20) e transtorno delirante persistente (CID-10 F22). Ao longo dos anos, abandonou tratamentos ambulatoriais e voltou a se envolver em episódios de violência. Os registros mostram que a Justiça aplicou medidas de contenção e que ele passou por internações nos estados de São Paulo e do Paraná. Após os períodos de internação, porém, voltou a ficar em liberdade e, segundo o histórico reunido nos processos, voltou a cometer crimes.

Trecho do laudo clínico confeccionado pela Justiça do Estado de São Paulo sobre o homem que sequestrou 13 crianças na última sexta

Ataque no metrô de São Paulo

Um dos episódios mais graves, antes do ataque da última sexta, ocorreu em 23 de abril de 2021, quando o homem foi preso após tentar empurrar uma passageira nos trilhos da Estação Sé do Metrô de São Paulo, no momento em que um trem se aproximava. Em depoimento e em cadernos apreendidos pela polícia, ele relatou que o plano original era empurrar três mulheres contra os trilhos. O caso resultou em denúncia por tentativa de homicídio.

Em 2023, a Justiça paulista decidiu que ele não poderia ser condenado como um criminoso comum em razão dos problemas mentais e determinou sua internação em um hospital psiquiátrico. Em junho de 2024, peritos do presídio médico de Taubaté se posicionaram contra a soltura. Segundo os documentos, ele continuava sendo considerado extremamente perigoso, não controlava os próprios impulsos, ameaçava funcionários e havia ateado fogo na própria cela.

Parecer clínico forense do suspeito após tentar matar uma mulher no Metrõ de São Paulo, em 2021

Em meados de 2025, o homem foi transferido para o hospital psiquiátrico de Franco da Rocha, em São Paulo. Uma nova junta médica avaliou que o quadro havia se estabilizado com o uso contínuo de medicamentos e autorizou a continuidade do tratamento fora da instituição, com acompanhamento do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) e da família.

Livre e de volta ao Paraná

Após deixar a internação, o homem voltou ao Paraná. Ele já havia sido internado no Hospital Bom Retiro, em Curitiba, em 2014. Antes do ataque ao CMEI, acumulou registros policiais por vandalizar uma pensão, enviar cartas com ameaças de morte a funcionários e quebrar a fachada do condomínio onde havia trabalhado como porteiro, em Curitiba.

Em setembro de 2025, a Polícia Militar também precisou revistar a casa dele, em Mallet, após a Secretaria Municipal de Educação denunciar um suposto plano para atacar uma escola da região.

Os episódios passaram a integrar o histórico de ocorrências envolvendo o homem, que continuava em liberdade. Os documentos também mostram que o caso foi acompanhado por autoridades judiciais e de saúde nos dois estados.

Tratamento em liberdade

Apesar das ocorrências registradas, o Ministério Público do Paraná acatou um pedido da defesa do agressor e deu parecer favoráve para que o homem continuasse em liberdade, com tratamento fora de uma instituição psiquiátrica. Em parecer anexado ao processo em agosto de 2026, a Procuradoria de Justiça se manifestou contra o retorno dele ao hospital.

O parecer argumentou que a polícia não havia encontrado objetos ilícitos na casa do homem durante as buscas realizadas em Mallet. Também sustentou que os crimes violentos cometidos anteriormente em São Paulo e Curitiba não poderiam, por si só, justificar uma nova internação. “Logo, inexistindo elementos concretos, confirmados e atuais nos autos que justifiquem o abalo da conclusão constante no último laudo de cessação de periculosidade”, diz o trecho da decisão da Procuradoria do MP atendendendo um recurso da defesa do homem.

Ataque ao CMEI foi o episódio mais recente

A sequência de ocorrências teve um novo desfecho na última sexta-feira (9), quando o homem invadiu um Centro Municipal de Educação Infantil no bairro São Braz, em Curitiba, armado com uma faca e galões de combustível.

No local, fez 13 crianças, com idades entre 3 e 5 anos, e uma professora reféns. Durante a invasão, agrediu vítimas dentro de uma sala de aula, provocando momentos de tensão e mobilizando equipes policiais para o resgate.

O episódio terminou quando policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) atiraram contra o agressor, que morreu. Graças a ação rápida e precisa dos policiais, todas as 13 crianças e a professora foram libertadas com vida e sem ferimentos.

O nome do criminoso não foi revelado por uma escolha editorial do Portal Populari que entende que a publicidade ao nome de indivíduos como esse apenas reforçam comportamentos violentos de outros potenciais agressores.