Uma organização criminosa investigada por tráfico interestadual de drogas, lavagem de dinheiro, torturas e homicídios mantinha uma estrutura de comando dentro de um presídio do Sudoeste do Paraná. De acordo com a Polícia Civil, lideranças presas usavam celulares clandestinos e roteadores para manter contato com integrantes nas ruas, coordenar a distribuição de entorpecentes e ordenar crimes em dezenas de cidades do Paraná, Santa Catarina e São Paulo. A estrutura foi alvo de uma operação deflagrada nesta quarta-feira (14), com 215 mandados judiciais e mais de 500 policiais mobilizados. 106 pessoas foram presas.
A investigação começou em Clevelândia, no Sudoeste do Estado, após a polícia apurar crimes violentos atribuídos ao grupo. Entre eles estavam torturas e cárcere privado de pessoas acusadas pelos próprios integrantes de traição, além de ameaças e intimidações usadas para cobrar dívidas relacionadas ao tráfico. Ao rastrear a origem das ordens para esses crimes, os investigadores chegaram a celulares clandestinos apreendidos em uma penitenciária da região.
A partir da análise dos dados dos aparelhos, a Polícia Civil identificou uma organização com divisão de tarefas, hierarquia própria e comunicação permanente entre presos e integrantes que atuavam fora do sistema penitenciário. A operação, realizada em conjunto com o Ministério Público do Paraná, busca interromper essa estrutura e reunir novas provas sobre a atuação do grupo.
Celulares e roteadores mantinham o comando dentro do presídio
Segundo a investigação, os presos que ocupavam posições de liderança conseguiam transmitir ordens para integrantes em diferentes cidades, mesmo estando encarcerados. Para manter a comunicação com o meio externo, a organização escondia, recarregava e fazia circular celulares e roteadores entre as celas. Os equipamentos permitiam que as lideranças continuassem negociando drogas, controlando pontos de venda e coordenando atividades criminosas fora da unidade prisional.
Dentro do presídio, o grupo também mantinha uma estrutura paralela de poder, com cargos e funções definidos. Um setor era responsável por fiscalizar as regras impostas pela facção, julgar presos considerados infratores e determinar castigos físicos. A organização, portanto, não se limitava à comunicação clandestina: segundo a polícia, havia uma divisão interna de funções para manter a disciplina do grupo e executar suas decisões.
Do lado de fora, uma rede de colaboradores dava suporte às atividades. A investigação identificou a participação de familiares e outras pessoas que, conforme a apuração policial, levavam entorpecentes escondidos no corpo durante visitas aos presos. Esse apoio ajudava a manter a circulação de drogas e a ligação entre as lideranças encarceradas e os integrantes que atuavam nas ruas.
A delegada Alini Simadon, da Polícia Civil do Paraná, afirmou que o rastreamento das ordens relacionadas aos crimes violentos permitiu chegar aos aparelhos clandestinos e revelar o alcance da organização. Segundo ela, o comando partia de dentro do sistema prisional e as determinações chegavam a integrantes de dezenas de cidades paranaenses e também de Santa Catarina e São Paulo.
Tráfico tinha logística de transporte e depósitos
A investigação também identificou uma estrutura organizada para o comércio de drogas. Conforme a Polícia Civil, o grupo transportava entorpecentes entre municípios, utilizava depósitos para armazenar as cargas e controlava pontos de venda à distância. As lideranças presas negociavam grandes quantidades de cocaína, crack e maconha, destinadas à distribuição e à revenda em diferentes regiões.
O esquema tinha regras comerciais próprias. De acordo com a apuração, os integrantes trabalhavam com preços tabelados para a venda das drogas e mantinham comunicação entre os responsáveis pela compra, pelo transporte, pelo armazenamento e pela distribuição. A estrutura permitia que as decisões fossem tomadas pelos líderes presos e executadas por colaboradores fora da penitenciária.
A operação busca atingir diferentes partes dessa rede, desde as lideranças e os responsáveis pela logística até os integrantes suspeitos de executar as ordens. Ao todo, são cumpridos 95 mandados de prisão e 120 mandados de busca e apreensão. A Justiça também autorizou a quebra do sigilo bancário de contas utilizadas pelo grupo e o acesso aos dados dos aparelhos eletrônicos apreendidos.
Dinheiro do tráfico passava por contas de terceiros
Para movimentar os valores obtidos com a venda de drogas, a organização utilizava contas bancárias em nome de terceiros. Segundo a delegada, familiares dos presos participavam da movimentação financeira, enquanto transferências via Pix eram feitas para contas abertas em nome de pessoas sem ligação formal com os detentos.
Os valores eram depositados de forma fracionada e sacados rapidamente, uma estratégia que, conforme a investigação, dificultava o rastreamento do dinheiro. A polícia também identificou uma empresa de fachada usada para receber pagamentos relacionados a cargas de drogas. A movimentação era registrada em planilhas de controle financeiro, que podem ajudar a reconstruir as transações e identificar outros envolvidos.

A quebra de sigilo bancário autorizada pela Justiça deve auxiliar na análise dessas operações e na identificação dos beneficiários dos recursos. O acesso aos dados dos equipamentos eletrônicos também pode contribuir para esclarecer a comunicação entre os integrantes, a hierarquia interna e a relação entre as ordens transmitidas de dentro do presídio e os crimes investigados.
Operação mobiliza mais de 500 policiais em três estados
A ação é realizada pela Polícia Civil do Paraná em conjunto com o Ministério Público do Paraná e conta com apoio da Polícia Militar do Paraná, da Polícia Penal do Paraná, da Polícia Civil de Santa Catarina e da Polícia Militar de São Paulo. Cães de faro também participam das diligências.
No Paraná, os mandados são cumpridos em Clevelândia, Pato Branco, Francisco Beltrão, Palmas, Coronel Vivida, Realeza, Santa Izabel do Oeste, Dois Vizinhos, Cascavel, Curitiba, Piraquara, Guarapuava, Laranjeiras do Sul, Capanema, Salto do Lontra, Santo Antônio do Sudoeste, Itaipulândia, Santa Helena, Barracão e Cruzeiro do Oeste. As diligências também ocorrem em Abelardo Luz, em Santa Catarina, e em São Carlos e Cotia, em São Paulo.
A investigação busca desarticular a rede de comando, logística e financiamento que, segundo a Polícia Civil, permitia à organização manter atividades criminosas mesmo com suas principais lideranças presas. Os mandados de prisão e de busca devem avançar na identificação dos integrantes, na coleta de provas e no rastreamento dos recursos movimentados pelo grupo.



