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Economia

Classe média precisa de mais de R$ 25 mil para manter vida que custava R$ 5 mil há 20 anos

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A classe média brasileira ficou mais cara de sustentar nos últimos 20 anos. O padrão de vida que, em 2006, podia ser mantido por uma família com renda mensal próxima de R$ 5 mil, hoje exige mais de R$ 25 mil para reproduzir uma estrutura semelhante, segundo estimativas reunidas a partir de dados de instituições como IBGE, DIEESE e FGV.

A diferença não está apenas na inflação acumulada no período. Educação, saúde, moradia, veículos, alimentação e crédito passaram a consumir uma parcela maior da renda. Ao mesmo tempo, salários e produtividade não acompanharam esse movimento na mesma velocidade. Mas existe outra mudança nessa conta. O dinheiro da classe média também passou a ter outros destinos.

Há cerca de 15 anos, uma família de quatro pessoas nas grandes capitais conseguia manter uma estrutura com casa, carro, dois filhos em escola particular, plano de saúde, férias e algum dinheiro guardado com uma renda conjunta estimada entre R$ 6 mil e R$ 8 mil. Hoje, para manter uma estrutura semelhante, a renda líquida necessária pode chegar à faixa de R$ 20 mil a R$ 30 mil mensais, dependendo da cidade e do padrão dos serviços contratados.

Duas mensalidades escolares em instituições particulares de bom padrão podem representar entre R$ 3,5 mil e R$ 6 mil por mês. Um plano de saúde para quatro pessoas pode consumir outros R$ 2,5 mil a R$ 4,5 mil. A conta ainda inclui moradia, condomínio, supermercado, transporte, seguros e combustível. O resultado é uma margem cada vez menor para lazer e, principalmente, para formar uma reserva financeira.

O que encareceu a vida da classe média

A inflação de serviços é uma parte importante dessa conta. Educação e saúde privadas passaram por reajustes que, em diversos períodos, ficaram acima da inflação média. São despesas que muitas famílias consideram difíceis de cortar.

A moradia também ficou mais pesada. O preço dos imóveis aumentou nas grandes cidades e os juros elevados encarecem os financiamentos. O mesmo acontece com os veículos. Os carros de entrada perderam espaço e o preço médio dos automóveis subiu. Para quem precisa financiar, o custo do dinheiro aumenta ainda mais o valor final.

A tributação também chega ao consumidor. Impostos e juros aumentam o custo de produção e operação das empresas e parte dessa conta aparece nos preços. Enquanto isso, a renda não avançou na mesma proporção. A produtividade brasileira apresentou crescimento limitado nas últimas décadas e o mercado de trabalho passou por mudanças que reduziram a estabilidade de parte das ocupações tradicionais.

Para o professor, economista e doutor em sociologia Marcos Valle, porém, olhar apenas para esses fatores não explica toda a mudança. O custo de vida aumentou, mas a maneira como a classe média passou a gastar também mudou.

Em entrevista ao Portal Populari, Valle explicou que há duas décadas, o que existia era um padrão mais claro do que significava ser classe média. Era construir patrimônio, melhorar a casa, comprar um carro, financiar um imóvel, pagar a escola dos filhos e guardar dinheiro. A formalização do trabalho também ajudava nesse planejamento. A CLT oferecia uma previsibilidade maior para organizar as despesas, assumir um financiamento e pensar no futuro. O objetivo era prosperar e construir patrimônio.

“No passado, há 20 anos, tínhamos um padrão do ser classe média, construir patrimônio, trazer conforto para casa. E a maioria dos empregos tinha um padrão formal, o CLT, que dava segurança para planejar e financiar um carro, um imóvel, planejar despesas. Isso também oferecia oportunidade de padrão de poupança, guardar dinheiro, buscando a ascensão.”

Esse padrão começou a mudar com a expansão da internet e, principalmente, dos smartphones. A renda passou a disputar espaço com outro tipo de consumo. Cursos, procedimentos estéticos, gastronomia, viagens, festas, serviços e equipamentos tecnológicos passaram a fazer parte do orçamento. Não são necessariamente gastos para construir patrimônio. São gastos para consumir agora.

“Com a era digital isso mudou para serviços, consumo, experiências. Você precisa comprar cursos, procedimentos estéticos, gastronomia, viagens, que não têm caráter patrimonialista e se tornam imediatos. Você precisa comprar experiência.”

A vida ficou publicável

É aqui que entra uma mudança que vai além da economia. A vida se tornou publicável.

As redes sociais ampliaram o número de pessoas diante das quais cada indivíduo apresenta sua rotina. Viagens, restaurantes, festas, compras, shows e experiências passaram a fazer parte da maneira como as pessoas mostram que estão inseridas em determinado contexto. O consumo passou a ser também uma forma de pertencimento. Para Valle, essa transformação está diretamente ligada aos avanços tecnológicos. “O padrão de consumo mudou com a internet e isso veio acelerando cada vez mais até a chegada da tecnologia dos smartphones, o que mudou o padrão de consumo e isso impacta a classe média.”

A vida que se posta hoje, agora nas redes, mudou o destino do dinheiro das pessoas; vida mais cara e sem previsão do amanhã.

Essa mudança não significa apenas que as pessoas passaram a gastar mais. Significa que o dinheiro passou a ter outros destinos. É nesse ponto que a ideia de modernidade líquida, apresentada pelo sociólogo Zygmunt Bauman, também chega à economia. A sociedade passou a valorizar relações, experiências e objetos de forma mais rápida e passageira. O consumo acompanha esse movimento.

“Baumann já alertava dos efeitos da modernidade líquida e ela alcançou também o padrão de consumo, afetando a economia como um todo.”

Quando o consumo estrutural deixa de ser prioridade

Essa mudança de prioridade também produz um efeito sobre aquilo que continua sendo necessário. O consumo estrutural, formado pelo patrimônio, pelos bens duráveis que oferecem conforto e pelos serviços essenciais, como educação e saúde privadas, deixou de ocupar sozinho o centro do orçamento familiar. E quando a procura por determinado bem ou serviço perde espaço dentro do consumo das famílias, enquanto seus custos de produção e manutenção continuam elevados, o mercado também reage.

É uma relação de oferta e procura. A demanda por experiências, tecnologia e serviços de consumo imediato cresce, enquanto a construção de patrimônio e alguns gastos estruturais passam a disputar espaço no orçamento. Ao mesmo tempo, imóveis, veículos, escolas e planos de saúde continuam tendo custos elevados de produção e operação.

O resultado é que aquilo que antes era prioridade ficou mais caro justamente quando a renda passou a ser disputada por um número maior de necessidades e desejos.

A família precisa pagar a escola, mas também quer manter o acesso às experiências que passaram a representar pertencimento. Precisa do plano de saúde, mas também convive com uma quantidade maior de serviços e produtos disputando o mesmo dinheiro. O problema, portanto, não está apenas no preço de cada coisa isoladamente. Está na quantidade de coisas que passaram a disputar a mesma renda.

É por isso que o custo de manter uma vida estruturada aumentou tanto nos últimos 20 anos. Não apenas porque os serviços essenciais ficaram mais caros, mas porque eles passaram a dividir espaço com um padrão de consumo que praticamente não existia da mesma forma duas décadas atrás.

Para Valle, essa transformação mudou o próprio radar de preocupação das famílias.

“O estilo de vida atual encareceu a vida. O mundo concreto não mudou, tudo custa caro, o que mudou foi o radar de preocupação das pessoas. A experiência, o show, a viagem, o lugar prevalece, o sentimento de inclusão.”

quando a renda não acompanha, entra o crédito

Existe ainda outro efeito. Um padrão convencional de renda já não acompanha essa dinâmica de consumo. Por isso, muitas pessoas passaram a buscar outras fontes de renda para financiar o estilo de vida.

Trabalhos paralelos, serviços, pequenos negócios e outras formas de complementar a renda passaram a fazer parte da realidade de muitas famílias. Isso cria a sensação de que é preciso correr cada vez mais atrás do dinheiro. Quando ainda assim a renda não fecha a conta, entra o crédito. O cartão deixa de ser apenas uma forma de pagamento e passa a completar o orçamento. Segundo levantamento citado pela Quaest, o cartão de crédito é utilizado por cerca de 58% da classe média e 73% da classe alta.

O problema aparece quando o crédito passa a financiar permanentemente a diferença entre aquilo que a família ganha e aquilo que considera necessário manter. A família reduz uma despesa, adia outra, troca um produto por uma opção mais barata e parcela aquilo de que não quer abrir mão.

Classe média também virou uma questão de pertencimento

Essa mudança ajuda a entender também por que 66% dos brasileiros se consideram de classe média, segundo pesquisa Quaest divulgada em fevereiro de 2025.O dado atravessa diferentes faixas de renda: 55% das pessoas classificadas estatisticamente na classe baixa se consideram de classe média, enquanto 81% das pessoas da classe alta também fazem essa autodeclaração. Classe média deixou de ser apenas uma faixa de renda. Também passou a representar um padrão de vida.

Escola particular, plano de saúde, carro, viagens e determinadas formas de lazer passaram a representar segurança, estabilidade e pertencimento. O problema é que manter todos esses marcadores ficou mais caro. E, quando a renda não acompanha, a família precisa escolher. Guarda dinheiro ou viaja. Troca o celular ou mantém a reserva. Investe na casa ou parcela uma experiência. Prioriza o futuro ou mantém o padrão de consumo do presente. Para Valle, essa é uma das maiores dificuldades do cenário atual.

“É muito difícil hoje você imprimir uma conscientização de como cuidar do amanhã com uma sociedade que vive o hoje e o agora.”

Uma classe média entre o hoje e o amanhã

A mudança no padrão de consumo também ajuda a explicar por que a poupança perdeu espaço. O dinheiro que antes poderia ser guardado para a compra de um imóvel, a troca do carro, a educação dos filhos ou uma emergência passou a ser dividido com uma quantidade maior de despesas e experiências. Mesmo em um cenário de melhora do emprego e da renda, existe uma contradição: mais dinheiro disponível não significa necessariamente mais patrimônio.

O destino desse dinheiro também importa. Quando o consumo imediato ganha espaço, aquilo que constrói segurança no longo prazo deixa de ser prioridade. A família pode até manter uma renda maior, mas continua sem conseguir formar reserva ou avançar na construção patrimonial.

Não há uma solução simples para essa mudança, porque ela não está apenas na economia. Ela envolve a maneira como a sociedade passou a viver, consumir e medir o próprio pertencimento. A classe média, portanto, ficou mais cara por dois lados.

Viagens, aparelhos eletrônicos, as experiências rápidas tomam o lugar do planejamento futuro

O básico ficou mais caro e o padrão de consumo também mudou. Há 20 anos, uma renda de aproximadamente R$ 5 mil podia sustentar uma estrutura que hoje exige mais de R$ 25 mil em condições semelhantes. Entre esses dois números estão a inflação dos serviços, o custo da moradia, os veículos, os juros, os impostos, a renda que não acompanhou a mesma velocidade e uma mudança no destino do dinheiro.

No fim, o problema não está apenas em quanto a classe média ganha. Está também em quanto custa manter aquilo que ela considera uma vida de classe média e quanto desse dinheiro precisa ser gasto hoje para sustentar uma sensação de pertencimento que antes estava ligada à construção do amanhã.

Como resume Valle:

“A vida estruturada é cara porque ela deixou de ser interessante.”