Ir para o conteúdo
Notícias quarta-feira 12°C Nublado
Newsletter
Assinar a newsletter
Notícias

Conhecimento em movimento: o desafio dos graduados que movem o empreendedorismo em Curitiba

Com 38,7% da população adulta com diploma universitário, a capital paranaense vê crescer um cenário em que a formação acadêmica também é usada no trabalho autônomo e no empreendedorismo.

Compartilhar: WhatsApp Threads

Na segunda reportagem da série especial “Curitiba pelos números: economia, renda e desafios da capital”, o Portal Populari traz uma análise sobre o mercado de trabalho e o desafio da qualificação profissional em Curitiba. Cruzando os dados socioeconômicos mais recentes com a realidade das ruas, o levantamento mostra o cenário vivido por milhares de graduados que se dividem entre a busca por vagas formais com carteira assinada (CLT) e os desafios e incertezas do trabalho por conta própria na sétima maior economia do país.

O ponto de partida dessa história é a nutricionista curitibana Juliana Zanetti. Ao concluir a graduação, ela seguiu o caminho tradicional de milhares de recém-formados: a busca por uma vaga formal no mercado de trabalho. No entanto, a realidade das contratações nem sempre se encaixa nas expectativas e nas necessidades de quem passa anos nos bancos universitários. “Trabalhei em alguns lugares, mas não era o que eu queria para mim”, relembra. Foi a partir desse impasse que Juliana tomou uma decisão que mudaria sua história: ao lado da mãe, Vera Zanetti, decidiu empreender “para ver no que ia dar”.

O que parecia uma aposta temporária virou uma trajetória de 10 anos. Hoje, mãe e filha estão à frente de sua própria loja de bolos e doces. A mudança da área da nutrição para a produção de bolos ainda gera estranheza em alguns clientes. “Muitas pessoas ficam surpresas ao saberem que sou nutricionista e trabalho com bolos, mas a nutrição é muito mais que dieta e emagrecimento. Se tem alimento envolvido, a nutricionista é essencial”, defende Juliana.

A história de Juliana ajuda a mostrar um cenário demográfico e econômico analisado pelo Portal Populari. De acordo com os dados oficiais da Pesquisa por Amostra de Domicílios do Paraná (PAD-PR 2025), divulgada pelo IPARDES, Curitiba possui uma das populações adultas com maior escolaridade do país: 38,70% das pessoas com 25 anos ou mais completaram o ensino superior. Quando somados aos 10,04% que possuem o superior incompleto, quase metade da população adulta da cidade já passou pelo ambiente universitário.

Essa concentração de trabalhadores com maior escolaridade aumenta a disputa no mercado corporativo tradicional. Embora o setor privado formal (CLT) continue sendo o maior empregador da cidade, com 44,22% dos curitibanos ocupados, a disputa por vagas que ofereçam salários compatíveis com a formação superior é grande. Diante de um mercado formal mais disputado ou de salários que não atendem às expectativas de quem passou anos na universidade, parte dos profissionais acaba buscando outras alternativas. O mesmo estudo do IPARDES revela que 32,86% dos curitibanos atuam por conta própria. Somados aos 5,79% que se tornaram empregadores, eles ajudam a mostrar uma mudança na forma como o trabalho é organizado na capital.

A Ciência por Trás da Vitrine e o Alinhamento de Competências

Longe de significar o abandono do diploma, o empreendedorismo entre profissionais qualificados em Curitiba mostra que a universidade também entrega conhecimentos que podem ser usados na administração dos pequenos negócios. No caso da loja de bolos da família Zanetti, a formação acadêmica virou uma ferramenta para o trabalho do dia a dia.

“Com a formação, aprendi as técnicas de higiene, boas práticas, a calcular preços, rendimentos e a estruturar fichas técnicas”, explica a microempresária. Esse conhecimento faz parte da rotina de uma loja que está há uma década no mercado, em um cenário econômico em transformação. Curitiba registra um PIB oficial definitivo de R$ 120,065 bilhões e lidera isoladamente a Região Sul. Entre 2021 e 2023, o PIB curitibano teve um crescimento nominal de 22,5%, acima da média de expansão do próprio Brasil (+21,1%) e de capitais como Salvador (+21,8%) e Fortaleza (+18,4%).

A economia da capital também se reflete na renda média do trabalho, que é de R$ 4.757,63. Esse valor ajuda a explicar a diferença entre Curitiba e os municípios do entorno. Enquanto a renda média do trabalho na capital chega a esse patamar, na região imediata, excluindo Curitiba, ela cai para R$ 2.973,65, uma diferença de aproximadamente 60%. A diferença também aparece na renda domiciliar per capita: R$ 4.010,06 em Curitiba contra R$ 2.108,32 no entorno. Esse cenário faz com que profissionais da Região Metropolitana também disputem as vagas formais da CLT dentro de Curitiba.

Juliana Zanetti e a mãe, Vera Zanetti, estão à frente da loja de bolos e doces há 10 anos, em Curitiba.

Para a mestre em Administração e especialista em Recursos Humanos e Gestão de Pessoas, Andressa Bueno Sergiato Meneghelli, esse cenário de maior escolaridade amplia as possibilidades, mas também cria desafios de sintonia entre profissionais e empresas. Ela pondera que o município possui um setor produtivo aquecido, com salários e pacotes de benefícios competitivos, porém alerta que a qualificação não pode ser resumida ao diploma. “O mercado de trabalho vai reconhecer e remunerar a partir da entrega de resultados desse colaborador, o que depende muito da cultura de cada organização”, explica.

O grande problema, segundo a especialista, está no desalinhamento entre as vagas disponíveis e as competências da mão de obra. “Muitas vezes percebemos que a qualificação é subutilizada. Há vagas abertas que não se conseguem preencher porque falta o alinhamento fino entre o que o profissional entrega e o que a empresa pede”, pontua Andressa Bueno. É justamente essa diferença que ajuda a explicar a presença de muitos graduados na fatia de 32,86% de autônomos registrada pelo IPARDES. De acordo com ela, esse grupo reúne desde o empreendedor por necessidade, que recorre ao negócio próprio pela falta de espaço formal, até uma geração que busca propósito. “Hoje o RH busca profissionais pelo chamado fit cultural. Os trabalhadores autônomos e prestadores de serviços muitas vezes saem do regime CLT buscando valores próprios, remunerações mais elevadas e flexibilidade. A busca pelo propósito é cada vez mais real e Curitiba oferece um cenário favorável para todos esses perfis, desde que haja alinhamento”, analisa.

O Peso da Autonomia: Quando a Conta não Fecha

Mas abrir o próprio negócio e deixar o regime CLT também traz desafios no dia a dia do microempreendedorismo. Quem deixa os 44,22% do emprego privado para ingressar nos 32,86% do trabalho autônomo troca uma renda previsível por uma rotina em que precisa cuidar de diferentes áreas do negócio. “Aprendemos que não podemos desistir, temos sempre que estar seguindo as tendências e nos aprimorando. Os desafios são diários: clientes, fornecedores, cuidar da parte administrativa e financeira. Não é nada fácil, ainda mais porque somos só eu e a mãe para tudo isso”, desabafa Juliana.

Sem uma estrutura corporativa, os riscos econômicos, tributários e logísticos ficam sob responsabilidade do próprio empreendedor. Na capital, onde 96,34% dos domicílios têm internet e 96,19% têm água encanada, os custos de produção e as mudanças nos preços dos insumos também pesam para quem está à frente de um pequeno negócio. “Cada mês é uma surpresa. Temos meses em que vendemos bem e passamos no azul, mas outros meses são uma luta diária. É muito difícil se equilibrar hoje em dia, pois os valores dos insumos para a produção estão variando muito e não podemos repassar isso totalmente aos clientes. Então é bem difícil equilibrar as contas. Mesmo depois de 10 anos, ainda assim, às vezes a conta não fecha no final do mês”, revela a nutricionista.

Essa instabilidade financeira e a mudança da previsibilidade do regime de carteira assinada para as variações do trabalho autônomo também são analisadas pela socióloga Andressa Ignácio, mestre em Sociologia. Ela aponta que as relações de trabalho estão passando por mudanças ligadas à lógica da “modernidade líquida”. “O processo de individualização do trabalhador vem se fortalecendo e as condições de trabalho já não são tão sólidas. Houve uma transformação estrutural com a entrada de tecnologias, que se potencializou por mudanças na própria mentalidade da atual geração de trabalhadores, além do enorme impacto gerado pela pandemia no home office, perda de empregos e na busca por propósito e alinhamento com expectativas de vida”, contextualiza a socióloga.

Andressa Ignácio afirma, contudo, que é preciso diferenciar o empreendedorismo entre profissionais qualificados daquele gerado pela necessidade de sobrevivência. Ela destaca que existem fatores que dificultam a inserção de mão de obra instruída na CLT: “Devemos olhar para profissionais altamente qualificados que não encontram lugar no mercado formal devido à idade — como quem se formou mais tarde ou perdeu o posto acima dos 50 anos e não consegue recolocação —, além dos jovens que saem das faculdades repletos de diplomas, mas sem experiência”.

A socióloga também aponta o descompasso entre a formação e a preparação para as mudanças no mercado de trabalho, além das consequências de longo prazo de um cenário em que uma parcela significativa dos trabalhadores está por conta própria. “Essa transferência de riscos econômicos corporativos para o indivíduo não é devidamente avaliada pela nova geração, e as matrizes curriculares das universidades falham em preparar os novos profissionais para essa visão. Se temos um grupo cada vez maior absorvendo esses riscos sozinhos, a conta trará consequências financeiras sérias no futuro, tanto para o cidadão quanto para o Estado, ampliando a fragilidade de quem não conseguiu se planejar para a velhice”, pondera Ignácio.

O contraste entre os modelos de trabalho também aparece na estrutura das empresas paranaenses. Enquanto setores como a tecnologia assimilam estruturas horizontais e colaborativas de trabalho, a socióloga lembra que a base da economia brasileira ainda é muito verticalizada, burocrática e dependente de setores específicos que resistem a mudanças na gestão de pessoas. As diferenças salariais e estruturais também mantêm barreiras históricas. “O Brasil é estruturado em desigualdades profundas por gênero, raça e localidade. Mulheres ainda ganham menos que homens exercendo as mesmas funções e possuindo a mesma escolaridade, o mesmo valendo para a população negra e pessoas com deficiência. Curitiba e o país têm um cenário muito positivo de aumento de escolaridade, mas isso infelizmente ainda não se traduz em um parâmetro real de igualdade dentro do mercado formal de trabalho”, conclui.

A rotina vivida na loja de doces da Juliana mostra um cenário em que Curitiba concentra oportunidades de empregos mais qualificados e uma renda acima da registrada na região imediata, enquanto profissionais também enfrentam os custos e a concorrência do mercado de trabalho. Empreender ou buscar a carteira assinada na capital paranaense envolve diferentes fatores, entre eles o uso da formação profissional, a segurança do regime CLT e os desafios do trabalho por conta própria.