O velório, na noite do dia 19 de agosto, era discreto. O choro era quase em silêncio. A dor de uma família que perdeu o filho, o irmão, o primo, o sobrinho, o neto, não era diferente de tantos outros velórios testemunhados pela pequena capela do interior. A diferença era que o corpo guardado pelo luto naquela noite era do jovem Alex Rivail Machado da Silva.
Alex era o motorista do caminhão envolvido no acidente com o micro-ônibus que transportava moradores de Imbituva, nos Campos Gerais, para tratamentos e consultas médicas em hospitais da Grande Curitiba. Além de Alex, outras 22 pessoas morreram no acidente que aconteceu na última quarta-feira, dia 19.
Na pequena capela da Igreja São Luiz dos Machados, em Castro, cidade natal de Alex, a mãe chorava junto ao caixão. Sem câmeras, sem imprensa, sem nota de solidariedade, sem manifestações públicas por sua perda direta. Era ela e a missão de lidar com o sentimento de, contrariando a ordem natural da vida, enterrar o próprio filho.
Era manhã de quinta-feira, dia 20 de agosto, quando o corpo de Alex deixou a capela e foi levado para o Cemitério do Sovacão, na zona rural de Castro. A esposa de Alex deu seu último adeus junto com a família, que desde o acidente se mantém reclusa. Eles têm medo.
A mãe sofre com a perda do filho, sofre com a tragédia que levou outras 22 vidas, mas também sofre com o ódio vindo das redes sociais. Para uma senhora do interior, é tudo muito difícil. Quase incompreensível.
A reportagem do Portal Populari conseguiu conversar com a família de Alex Rivail, que até então seguia invisível diante da dimensão de uma das maiores tragédias da história das rodovias do Paraná. Quem falou em nome de todos foi a prima de Alex, ela pediu para não ser identificada, pois tem medo de sofrer retaliações.
“A gente quer primeiro dizer que nos solidarizamos com todos. Prestamos nossa solidariedade a todas as famílias”, disse.
Ela contou que tem se dividido entre consolar a família, principalmente a mãe de Alex, enquanto procura compreender o que aconteceu. Segundo ela, a mãe do motorista está inconsolável. “Ela está desolada. Não quer falar, não quer se manifestar no momento”, explicou a prima, que fez ainda um apelo.
“Estamos todos com receio por todo o julgamento que estamos vendo. Só que queremos que todos saibam: estamos desolados, destruídos não só pela perda dele, como de todas as pessoas”, desabafou.
Sonho de criança
Segundo a família de Alex, o rapaz sonhava em ser motorista de caminhão. Era um apaixonado desde muito pequeno. O sonho tornou-se realidade há seis anos, quando o jovem passou a trabalhar como motorista profissional.
A mãe tinha muito orgulho de Alex, não apenas por ter realizado o sonho de criança, mas por ter se tornado um homem honesto e trabalhador. Casado, sem filhos, Alex viajava semanalmente puxando porcos para abate. Era assim que ganhava a vida e era feliz. Vida simples.
“Ele nunca se envolveu em um acidente antes. Estava há seis anos viajando, nunca teve problemas”, contou a prima.
Filho de uma família de três irmãos, Alex era o mais velho. Para a família, um rapaz cheio de vida e muito amado. “Era um menino alegre, contagiava o ambiente. Sempre feliz e junto da família”, descreveu. Na última quinta-feira, dia 20, mãe, irmãos, tios e amigos se reuniram para dar o último adeus ao jovem motorista. “Ele era muito bem-quisto, muito amado. O que estão falando dele nas redes não é verdade. Muita gente gostava dele”, pontuou a prima.
Invisíveis
Segundo a prima, o julgamento precipitado nas redes sociais acabou isolando a família e fez com que a dor deles se tornasse invisível.
“Ficamos invisíveis porque o culpam como se ele tivesse a intenção de ter feito aquilo. Só que ele trabalhava há mais de seis anos na área e nunca havia se envolvido em um acidente simples que fosse.”
Em meio à comoção pública pela tragédia, a prima revelou que apenas a empresa onde o rapaz trabalhava procurou a família para prestar solidariedade. A família afirma sofrer pela perda de Alex e também pelas outras famílias envolvidas na tragédia. Foi por isso que decidiu falar ao Populari e dar voz a esse sentimento.
“Nossa família está arrasada. Ele era muito família e dava valor em estar presente. Nós sentimos a dor e prestamos toda a solidariedade, nos colocando no lugar de todas as famílias. A dor é gigante e não existe uma explicação para o que aconteceu”, concluiu.



