Há pouco mais de uma década, comprar um carro de entrada no Brasil exigia, em média, o equivalente a 17 salários médios. Hoje, esse mesmo tipo de veículo consome mais de 25 salários médios. A diferença ajuda a dimensionar uma mudança no orçamento das famílias: mesmo quando a renda aumenta, manter o padrão de consumo pode exigir uma parcela maior do salário.
O exemplo faz parte de um estudo da Kinea Investimentos sobre o poder de compra da classe média brasileira. O levantamento aponta que a pressão sobre o orçamento não está apenas nos preços dos produtos. Despesas como plano de saúde, escola particular, aluguel, lazer e outros serviços também passaram a ocupar uma parcela maior da renda.
A trajetória da economia brasileira ajuda a contextualizar o cenário. Entre 1981 e 2024, o país cresceu, em média, 2,2% ao ano. Segundo a análise apresentada no estudo, esse ritmo não foi suficiente para produzir um avanço estrutural de renda e produtividade capaz de acompanhar a expansão do consumo.
Entre 2003 e 2013, milhões de brasileiros passaram a ter acesso a bens e serviços que antes estavam mais distantes, como carro novo, imóvel financiado e viagens de avião. Crédito, aumento real do salário mínimo, condições externas favoráveis e políticas de estímulo contribuíram para ampliar o consumo. O problema, segundo a análise, é que a expansão do consumo não foi acompanhada na mesma velocidade pelo aumento da produtividade.
Para tentar entender o que está acontecendo com a economia, a renda e o poder de consumo das famílias de classe média no país, o Portal Populari ouviu economistas e especialistas na área. Na reportagem de hoje, o economista Pio Martins, professor, escritor e comentarista econômico, traz uma leitura que ajuda a explicar essa nova realidade e faz um alerta sobre a dificuldade de prever mudanças na economia como as que a sociedade conseguia antecipar e às quais conseguia se adaptar em décadas passadas.
“O mundo mudou, a economia mudou. Fazer previsões hoje sobre como e quando teremos uma estabilidade como a que conhecíamos é algo que precisa ser tratado com muita cautela”, afirma Martins.
Para Martins, quatro fatores ajudam a explicar a pressão sobre o orçamento: juros e tributação, automação do trabalho, concentração da população nos grandes centros e mudanças nos hábitos de consumo provocadas pela tecnologia.
Juros e impostos fazem a renda render menos
Um dos fatores está no custo de produção e financiamento. Empresas que precisam de crédito para ampliar operações, comprar equipamentos ou renovar processos enfrentam custos financeiros. Ao mesmo tempo, precisam lidar com a tributação incidente sobre suas atividades. Parte desses custos pode chegar ao consumidor por meio dos preços. “Quando um comerciante sofre o impacto no custo da sua produção, parte do faturamento dele é transferida para o governo e para os bancos”, explica Pio Martins.
O efeito também aparece quando o consumidor precisa financiar um imóvel ou um veículo. Nesse caso, os juros incidem diretamente sobre o orçamento familiar. “Tudo isso encarece o custo de operação do empresário, o custo de vida da população. O cobertor fica curto”, afirma.
Crédito passou a complementar a renda
Os números apresentados pela Kinea ajudam a dimensionar o avanço do endividamento. O estudo aponta que o endividamento das famílias em relação à renda praticamente dobrou desde meados dos anos 2000 e está próximo dos maiores níveis históricos. O comprometimento da renda com o pagamento das dívidas também permanece elevado.
Outro dado citado no levantamento é o de 18,9 milhões de brasileiros em situação classificada como “ativo problemático”, considerando atraso superior a 90 dias ou risco elevado de inadimplência, segundo dados de relatório do Banco Central. O número cresceu 47% em quatro anos.

Nesse cenário, o crédito passa a complementar a renda disponível. Quando o salário não acompanha o padrão de consumo incorporado pela família, cartão de crédito, financiamentos e outras modalidades de empréstimo podem ser utilizados para fechar as contas do mês.
Tecnologia aumentou as opções de consumo
A pressão sobre o orçamento não está apenas relacionada ao aumento dos preços. Também mudou a quantidade de produtos e serviços disponíveis para o consumidor.
Serviços de streaming, aplicativos, celulares, computadores, tablets, softwares, compras pela internet e outras despesas passaram a fazer parte do orçamento de muitas famílias. “Hoje o consumo mudou, com produtos e serviços ao alcance de um clique no celular. Compra-se de tudo, de streaming a utilidades do lar, passando por todo tipo de bens não duráveis”, afirma Martins. Individualmente, algumas dessas despesas podem representar valores pequenos. Somadas, porém, passam a disputar espaço com outras despesas fixas da família.

Concentração urbana aumenta custos
Outro fator apontado pelo economista é a transformação do mercado de trabalho. A mecanização e a automação reduziram a necessidade de mão de obra em diversas atividades rurais. Parte dos trabalhadores migrou para os centros urbanos em busca de oportunidades.
Na avaliação de Martins, esse movimento aumentou a oferta de mão de obra nas cidades e pressionou os salários em determinados setores. “A zona rural se mecanizou, automatizou, isso aumentou a oferta nos grandes centros e achatou os salários”, explica. A concentração populacional também influencia os custos de moradia e deslocamento. Nas regiões metropolitanas, aluguel e transporte podem consumir uma parcela significativa da renda das famílias.
Mais renda não significa manter o mesmo padrão
Os dados sobre a composição da população mostram que a discussão sobre classe média não pode ser reduzida apenas à quantidade de pessoas em determinada faixa de renda. Segundo dados da FGV citados no levantamento, a chamada classe C correspondia a 60,97% da população em 2024. Consideradas as classes A, B e C, a parcela chegava a 78,18%. Entre 2022 e 2024, a participação das classes ABC aumentou 8,44 pontos percentuais.
Isso significa que a expansão de determinada faixa de renda não necessariamente representa facilidade para manter o mesmo padrão de consumo. Os números apresentados no estudo ajudam a dimensionar essa diferença: um carro de entrada, que há pouco mais de uma década representava cerca de 17 salários médios, passou a equivaler a mais de 25. O endividamento das famílias praticamente dobrou desde meados dos anos 2000, enquanto 18,9 milhões de brasileiros aparecem na categoria de crédito considerada problemática.

Para Pio Martins, portanto, a perda de poder de compra não pode ser atribuída a um único indicador. “A perda de poder de compra não é culpa somente da inflação”, reforça. Na prática, a pressão aparece na soma das despesas. Moradia, carro, escola, plano de saúde, alimentação, lazer e viagens continuam fazendo parte das expectativas de consumo de muitas famílias, mas ocupam uma parcela maior da renda.
O desafio da classe média brasileira não é apenas aumentar a renda, mas fazer com que ela acompanhe o custo de manter o padrão de vida conquistado ao longo dos anos. Para a próxima reportagem, o Portal Populari ouviu especialistas em economia e renda para explicar quais os caminhos para uma adaptação a nova realidade da economia.



