No coração do Centro Histórico de Curitiba, duas exposições da 16ª Bienal Internacional de Curitiba oferecem acesso gratuito a universos artísticos diferentes, mas ligados por uma questão central desta edição: aquilo que permanece enquanto tudo se transforma. No Memorial de Curitiba, o paraibano Ciro Fernandes, um dos mestres da gravura brasileira, e o fotógrafo argentino Abraham Votroba constroem diferentes aproximações com LIMIARES, conceito que orienta a Bienal até 15 de novembro.
De um lado, quase 100 obras e matrizes percorrem mais de seis décadas de produção. De outro, a fotografia trabalha o instante e a sobreposição entre aquilo que já passou e o que ainda persiste.
A presença das duas mostras no Memorial também amplia a relação da Bienal com a cidade. Localizado no Largo da Ordem, o espaço permite encontrar arte contemporânea fora do circuito convencional e gratuitamente. É ali que estão temporariamente instalados o Museu da Gravura Cidade de Curitiba e o Museu da Fotografia Cidade de Curitiba, equipamentos da Fundação Cultural de Curitiba (FCC) que recebem as duas exposições.
Ciro Fernandes transforma memória em gravura
Em “Ciro Fernandes: o menino, o olho e o pássaro”, o tempo assume espessura. Aos 84 anos, Ciro Fernandes retorna aos espaços expositivos de Curitiba depois de mais de quatro décadas com uma mostra que reúne aproximadamente cem trabalhos impressos e matrizes de xilogravura. O visitante pode observar não apenas a imagem final, mas também aquilo que normalmente permanece oculto: a superfície talhada da qual ela nasceu.
Com curadoria de Iriana Vezzani, a exposição percorre diferentes momentos de uma produção construída entre memória, imaginação, cultura popular e experimentação visual. Nascido em Uiraúna, no sertão da Paraíba, e radicado no Rio de Janeiro, Ciro desenvolveu ao longo de mais de seis décadas uma linguagem própria, que interpreta pássaros, figuras humanas, animais e elementos de um imaginário no qual as referências populares não aparecem como citação ou nostalgia, mas como matéria viva de criação.
É justamente nessa convivência entre tradição e contemporaneidade que a obra encontra o conceito de LIMIARES. O pássaro, figura recorrente em sua produção, pode habitar a terra e o céu. O olho estabelece a passagem entre interior e exterior, entre aquilo que se vê e aquilo que se imagina. A própria xilogravura existe nesse intervalo: entre madeira e papel, matriz e imagem, gesto físico e reprodução.
“Os trabalhos tratam de questões que atravessam minha vida há muitos anos, ligadas ao imaginário, à observação do mundo e à liberdade criativa”, afirma Ciro Fernandes.
A presença das matrizes acrescenta outra dimensão à exposição. Nelas permanecem as incisões, o esforço e as decisões do artista antes que a tinta encontre o papel. Para Iriana Vezzani, esses elementos guardam “o tempo, o gesto e a experiência corporal envolvidos na construção da imagem”.

Ciro realizou em junho uma demonstração de xilogravura ao vivo e foi anunciada a doação de uma de suas obras ao Museu da Gravura Cidade de Curitiba, incorporando à cidade um vestígio permanente dessa passagem.
A trajetória de Ciro também estabelece um encontro entre permanência e renovação. Depois de décadas dedicadas a uma das mais antigas técnicas de reprodução de imagens, o artista encontrou nas redes sociais um novo público. Ele reúne mais de 200 mil seguidores no Instagram, e seus vídeos sobre processos de criação alcançam milhões de visualizações. Madeira, goiva, tinta e papel passam a circular pela velocidade da imagem digital.
Abraham Votroba leva memória e tempo para a fotografia
Se Ciro Fernandes grava a memória sobre a matéria, o fotógrafo argentino Abraham Votroba investiga aquilo que a lembrança conserva, muda ou deixa escapar. Em “Me quedé mirando”, com curadoria de Guilherme Zawa, o artista constrói uma cartografia íntima feita de fotografias, palavras, sombras e sobreposições.
A dupla exposição é um dos procedimentos centrais da mostra. Dois tempos, corpos ou feixes de luz passam a ocupar simultaneamente uma mesma imagem, fazendo do recurso fotográfico também uma metáfora para a maneira como lembramos: o passado nunca retorna intacto, mas se sobrepõe ao presente e é continuamente reconstruído por ele.
Fotografias desbotadas ganham volume, palavras aparecem suspensas em fios translúcidos e sombras projetadas recompõem paisagens interiores. A fotografia, assim, deixa de estar confinada ao enquadramento e avança pelo espaço.
Nascido em Misiones, na Argentina, em 1979, e radicado em Buenos Aires, Votroba é formado pela Escola Argentina de Fotografia e desenvolve uma produção ligada à memória, ao tempo e à experiência pessoal. Seus trabalhos já foram apresentados em instituições argentinas e internacionais.
Curitiba também faz parte da trajetória do artista. Votroba já expôs anteriormente no Museu da Fotografia e apresentou, na cidade, o livro El velo del tiempo.
Bienal ocupa Curitiba até novembro
A 16ª Bienal Internacional de Curitiba é realizada pelo Ministério da Cultura, Governo Federal – Do lado do povo brasileiro, MON, MAC Paraná e Paraná Festival – Secretaria de Estado da Cultura (SEEC) – Governo do Paraná. O evento tem apoio da Fundação Cultural de Curitiba (FCC), da Prefeitura de Curitiba.
A programação da Bienal pode ser acompanhada pelos sites 16bienaldecuritiba.org e curitibaartweek.com e pelas redes sociais da Bienal e da Curitiba Art Week.
A 16ª Bienal Internacional de Curitiba segue até 15 de novembro e ocupa diferentes espaços da cidade com exposições e outras atividades.
Sobre a Bienal de Curitiba
A Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba é realizada desde 1993 e ocupa museus, galerias e espaços públicos com exposições, performances, instalações e ações educativas.
O evento reúne artistas de diferentes países e promove encontros entre a produção local e a internacional. Ao longo de sua trajetória, recebeu nomes como Marina Abramović, Julio Le Parc, Louise Bourgeois, Anish Kapoor e Cildo Meireles.
Além do circuito expositivo, a Bienal mantém programas de formação e ampliação de acesso à arte. Em sua última edição presencial, reuniu mais de um milhão de visitantes.
